UM DIA MUITO FELIZ PARA TODAS AS MÃES!...
MINHA MÃE

Minha mãe,minha mãe! ai que saudade imensa.
Do tempo em que ajoelhava, orando,ao pé de ti.
Caía mansa a noite;e andorinhas aos pares
Cruzavam-se,voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a Lua branca,além,por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo,ia em triunfo ao céu!...
E, mãos postas,ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua a subir,muda,alumiando o espaço,
Eu balbucionava a minha infantil oração,
Pedindo a Deus,que está no azul do firmamento,
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia:
Pelos mortos,no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as mágoas;
Pelos míseros que,entre uivos das procelas,
Vão,em noites sem lua e num barco sem velas,
Errantes através do turbilhão das águas...
O meu coração puro,imaculado e santo,
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de pai!...
A minha mãe faltou-me, era eu pequenino;
Mas da sua piedade o fulgor diamantino
Ficou sempre abençoando a minha vida inteira,
Como junto dum leão um sorriso divino,
Como sobre uma forca um ramo de oliveira!
Guerra Junqueiro